
“Ao abrir um livro, vislumbro um horizonte, onde a vista vai muito além do ponto.” ( Elan klever )
Drummond, via na leitura, uma inesgotável fonte de prazer, apesar de já em sua época notar que muitos não partilhavam de seu olhar. Me parece que o prazer e o enfadonho sempre foram adjetivos para a leitura, não importando o tempo. Talvez, porque esperamos que o gosto pela leitura seja um dom, uma espécie de inatismo intelectualista, ao invés de um hábito, que se cultivado desde a tenra infância, torna-se mais fácil e prazeroso quando exercitado.
Muitos alegam, para o bem de suas próprias consciências, que não foram incutidos no mundo literário quando jovens, por isso não desenvolveram o gosto pela leitura. Ora, não fomos estimulados a muitos gostos na infância, e nem por isso deixamos de desenvolvê-los.
Mas voltemos ao prazer pela leitura, o grande ensaísta argentino, Jorge Luis Borges, acreditava que o paraíso é uma espécie de livraria. Complementando tal pensamento, diria eu que, talvez, seja a melhor das livrarias, porque poderemos ter contato com seus autores, e conhecer a fundo o que queriam dizer de fato.
É verdade que, até com certa frequência, é possível saber o que o escritor queria dizer, seja por sua clareza, seja pela uníssono dos doutos a respeito. Neste segundo caso, a certeza deve ser menor, onde há muita concordância, pouco se pensa de fato.
E ademais, Fico pensando, se Borges e meu adendo estiverem corretos, ao morrer, e espero eu, adentrar no paraíso; num dos infinitos momentos que teria por lá, eu encontrasse com Drummond, e começássemos a conversar…(Devo admitir que nestas reticências perco-me diante deste indelével prazer) Dentre tanto que poderíamos falar, contar-lhe-ia sobre as especulações acerca de um de seus poemas mais famosos: “No meio do caminho”. Conspiram as teorias que na realidade, o poeta poderia referir-se a problemas que enfrentava na época, ou para alguns, mais comprometidos com o humor do que a história, dizem que seria uma “pedra nos rins”.
E ao ouvir tais palavras, imagino eu, Drummond cairia em uma risada incontida e diria-me: “-Ah rapaz, mas que besteira. Era apenas uma pedra onde eu topara o pé, e que na hora doera bastante!” Ah, que bom seria! Caminhar pelos Jardins do paraíso e encontrar estes vultos da literatura. Ainda imagino-me andando e vendo ao longe Monteiro Lobato contando histórias para Crianças, Santo Tomás de Aquino e Santo Agostinho em um fervoroso debate a cerca da humanidade, pedindo o parecer de minerva de São Miguel Arcanjo. E tudo isso ao som de Vinícios de Morais ou Villa Lobos.
A Literatura nos permite imergir em um mundo infinito de possibilidades e elucubrações magníficas, atingir o transcendente e registrá-lo em palavras, tocar o infinito através das vozes imortais que ecoam nas páginas dos livros.
O escritor americano, Henry Thoreau, disse que: “Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro”. E não poderia deixar de concordar com tal proposição. Ainda em minha juventude, posso elencar alguns poucos livros que marcaram-me, mudando ou reforçando minhas concepções filosóficas, teológicas e morais.
Portanto, é um sábio conselho, saber escolher com perícia os livros que devemos ler, haja visto a imensidão de literatura disponível e nosso curto tempo para desfrutá-la. Poucos homens poderão acumular centenas de livros lidos, até porque, muitas vezes o tempo e a urgência das obrigações não nos permitirão tal deleite. A estes, que puderam e poderão desfrutar deste gozo intelectual constante, poderíamos chamar de eruditos, que para Rubem Alves, seriam obesos de espírito, por acumularem grande conhecimento, sem, muitas vezes, digeri-lo por completo.
Aliás, como é curiosa esta analogia entre gastronomia e a leitura. Os antigos diziam que a leitura é o alimento para a mente, assim como a comida é para o corpo. E realmente estavam certos. Se a falta da leitura não causa uma atrofia mental completa, mina e dissipa nosso esforço e capacidade crítica.
Em nossa colapsada e frágil sociedade moderna, onde o conceito de isonomia foi substituído pela massificação, a leitura se não é desencorajada, é absolutamente desestimulada… Parece que o escritor do romance distópico ficcional Fahrenheit 451, Ray Bradbury, fazendo uma crítica a sociedade de sua época, também escrevera sobre o futuro, prevendo ainda na década de 50 o que viveríamos nos dias de hoje.
Está certo que não há, como no livro, bombeiros que ao invés de apagarem o fogo de casas, são peritos em descobrir esconderijos de livros e ao encontrá-los, queimar todos ( Por isso o nome Fahrenheit 451, que seria a temperatura em que o livro incendeia) já que sua leitura era proibida pelo governo. Afinal, como Bradbury narra, os livros faziam as pessoas refletirem, e isso trazia apenas infelicidade a elas. Já a televisão, era um modelo perfeito de entretenimento, substituindo perfeitamente a leitura, trazendo-nos felicidade.
Para muitos, de fato, isso ocorreu. A instantaneidade da televisão, e ausência de reflexão para compreender o que é exposto, substituiu a leitura, sendo atualmente o maior formador cultural e manipulador das massas.
Talvez, um dia, essa sociedade saia deste hipnotismo narcotizante que promove a ignorância, e escolham melhores governantes, que priorizem de fato a educação, principalmente nos seus níveis mais elementares. Valorizem a literatura, as artes, os educadores; sendo estes humanizadores e veículos para o enriquecimento cultural. Promovam uma educação que não trate os alunos como depósitos de conteúdo, dotados unicamente da efêmera capacidade de passar em vestibulares. Mas que coloque o conteúdo à disposição do aluno, e que ele possa desenvolver suas aptidões e talentos. Uma educação básica que promova o gosto da leitura, o lúdico e transformador amor pelas palavras.
Neste momento, poderemos orgulhos dizer que, o ideal de Monteiro Lobato se concretizou. De fato seremos um País feito de homens e de livros.
Por André Luiz T. Calcagno
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